30/01/2008

200 anos de indústria gráfica no Brasil
200 anos de lutas, conquistas e muita resistência

O início da indústria gráfica no Brasil coincide com a chegada da família real de Portugal, em 1808. D. João VI, rei de Portugal, veio para o Brasil fugindo de Napoleão Bonaparte, e trouxe a corte para o Rio de Janeiro e, junto, a primeira tipografia. Assim começou a história de um setor que sempre influenciou os rumos da economia brasileira, do ponto de vista das empresas, mas também por parte dos trabalhadores.

Nesses 200 anos os trabalhadores gráficos, inicialmente imigrantes europeus, sempre estiveram à frente das lutas e conquistas do sindicalismo brasileiro, sendo os primeiros a se organizar, dando o exemplo a outros trabalhadores. Em 1853, criaram a Imperial Associação Tipográfica Fluminense, e esta associação comandou a primeira greve de gráficos no país, ocorrida em 1858. Os gráficos, altamente politizados e com grande poder de influência, dirigiam lutas em todos os setores da classe.

No século XX, os gráficos continuaram a ter papel destacado na organização dos trabalhadores. Participaram de todos os momentos políticos do país: as grandes greves gerais das décadas de 20 e 30, que conquistaram direitos mantidos até hoje; as lutas da década de 60 e 70, pela redemocratização do país e pelo fim da ditadura militar; e, nos últimos 20 anos, as lutas contra os planos econômicos dos governos dito “democráticos”, de Sarney até Lula. Portanto, o passado de nossa categoria é glorioso, dele temos que nos orgulhar e, assim, nos esforçar muito para honrar as iniciativas de grandes homens e mulheres – operários gráficos - que nos legaram essa tradição de luta e organização.

Além de papel destacado na organização geral da classe, os dirigentes gráficos não descuidavam da própria categoria e nem das questões específicas do trabalho e dos produtos gráficos. Se, a partir de suas greves históricas, conquistaram as 8 horas de trabalho, a melhoria das condições de trabalho e a redução da carga horária para mulheres e crianças, a partir de sua inteligência e dedicação profissional elevaram a qualidade da impressão de forma crescente, conferindo aos impressos gráficos, qualidade e beleza que fascinam.

Capitalismo não aceita a organização
dos trabalhadores e ataca direitos

Apesar de toda a herança de luta de nossa categoria e da resistência que segue, a situação geral tem se complicado para todos os trabalhadores, especialmente nos últimos vinte anos, a chamada “era neoliberal” ou neoliberalismo. O neoliberalismo privatizou serviços públicos, diminuiu investimentos sociais, sumiu com os empregos e reduziu o salário do trabalhador. Os ataques vêm em grande quantidade e são articulados pelo governo e pelos patrões. A ofensiva não poupa ninguém e exige mais resistência.

Estamos nessa fase e buscamos incansavelmente organizar nossa categoria para resistir aos ataques. Por isso temos defendido e praticado a unificação do sindicato no Estado, temos buscado a unidade com outros trabalhadores na CONLUTAS, temos buscado atuar solidariamente junto aos movimentos sociais urbanos e rurais. Por isso nossa luta árdua em defesa de conquistas importantes como o Dia Nacional do Gráfico, o 7 de Fevereiro.

Apesar dessa resistência, uma contradição enorme se aprofunda no setor gráfico: a indústria cresce e se moderniza; as técnicas de impressão são cada vez mais perfeitas e os empresários são bem-sucedidos e lucram muito. Mas tudo isso à custa da precarização do salário e das condições de vida dos trabalhadores. Baixos salários, descumprimento de legislação e das convenções coletivas, falta de investimento em condições de trabalho e na qualificação, desprezo aos valores humanos e impedimento da liberdade sindical. Essa tem sido a tônica dada pela maioria dos patrões gráficos. É contra isso temos que lutar.

A organização se perdeu no corporativismo e na falta de consciência política

Sem luta, as vitórias se perdem no tempo, vão se apagando de nossa memória. A voracidade do capital, as tecnologias e novas formas de organização da produção roubaram do gráfico boa parte do saber de ofício, desvalorizando a categoria. A perda da consciência política de classe e do poder de resistência diminuíram o poder de negociação. Hoje o gráfico não é mais o mesmo. O crescimento e o lucro da indústria é inversamente proporcional ao seu salário: Quanto mais lucro para a indústria, menor o salário do trabalhador.

Uma coisa é certa. Se existe indústria gráfica no Brasil há 200 anos é porque existem trabalhadores gráficos há 200 anos. Não foi D. João VI quem trabalhou nas tipografias do Rio de Janeiro, assim como não são os patrões atuais quem desenha, imprime, intercala ou faz qualquer tarefa inerente à profissão gráfica. Nestes 200 anos de indústria gráfica, cabe os Parabéns aos trabalhadores gráficos, pois são eles que proporcionam toda a riqueza e como tal merecem mais valorização.

Salário e valorização não vêm de mão beijada
Vamos à luta!

Então, porque tanta desigualdade e injustiça? Porque essa é a lógica do capitalismo. Contra isso, é preciso lutar, pois as conquistas não vêm de graça. Ao contrário, os patrões se unem entre si e com o governo para retirar direitos, pagar baixos salários e encontrar formas de burlar as leis conquistadas com a luta dos trabalhadores. E não adianta apenas reclamar ou jogar a culpa nos outros. A defesa e ampliação dos direitos é tarefa de cada trabalhador e de cada trabalhadora gráfica. As conquistas só são possíveis a partir da união em torno do sindicato e com outros trabalhadores.

Pensando em tudo isto, o STIG-MG propôs à Confederação e à Federação Nacional dos Gráficos uma série de atividades para marcar os 200 anos de indústria gráfica no Brasil. Estaremos discutindo em fevereiro esse importante projeto que visa expor o tema sob o ponto de vista da nossa classe. Em nosso “Perfil Gráfico” divulgaremos matérias analisando aspectos importantes como a evolução tecnológica, a qualificação e a situação profissional dos trabalhadores, e, por fim, as perspectivas de organização e luta.

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